Bodega sortida


Tudo que quiser eu tenho
basta só me procurar
focinheira pra cabrito
alça para caçuá
bainha para machado
pote pra leite qualhado
fojo pra pegar preá

Só aqui vai encontrar
as coisas mais atuais
tem pente para careca
roupa para animais
fuso para fazer fio
tem pneu para navio
pra por na frente ou atrás

Das simples as mais banais
qualquer coisa em sempre tenho
motor pra cultivador
moenda para engenho
afinador para berro
caldeira pra trem de ferro
que mostra bom desempenho

O que você pensar eu tenho
daqui para o estrangeiro
óculos de grau para cego
máquina pra fazer dinheiro
Arco para landuar
antes do Japão lançar
aqui já chegou primeiro

Relógio pra beradeiro
que brilha mais que o sol
sal líquido ou em pedra
direto de Mossoró
tenho pau pra toda obra
camisola para cobra
Gravata para socó

Meu produto é o melhor
Só tem coisas de primeira
Passagem pra ir pra lua
Até na classe derradeira
se for mentira Deus me finde
E de quebra leva um brinde
Que é um arco pra peneira

E vendo qualquer besteira
pode vir que aqui tem
verniz pra lustrar barata
cama de ar para trem
esponja pra secar gelo
brilhantina pra cabelo
arapuca pra vemvem


pode procurar que tem
cola para dentadura
camisinha pra jumento
açúcar pra rapadura
massa pra massa cabelo
 tesoura pra cortar selo
comprimido pra loucura

pra quem quer vida futura
vendo terreno no céu
com garantia de Deus
assinado no papel
o contrato é provisório
registrado no cartório
de Joaquim e Manoel

tem cadeira para réu
até telha perfurada
tem tijolo transparente
que fica bom na fachada
e a tinta incolor
seca mais não muda a cor
pois é muito procurada

tenho gesso pra latada
que pode chover em cima
cabo para alavanca
afiador para lima
vendo até no crediário
tem até dicionário
pra quem quer aprender rima

Quando criança

Sítio catolé. Lugar onde nasci
Eu + ou - 8 anos ao lado do meu pai

Fui criado em um sítio
por nome de catolé
município de Coremas
pertinho de São José
podia até viajar
que pra cidade de Aguiá
dava para ir a pé

Eu e o cachorro Veludo
caçava o dia inteiro
pegando preá na mata
nas moitas de marmeleiro
só voltava á noitinha
pra balançar na redinha
sobre a luz de um candieiro

Acordava bem cedinho
do trabalho me escondia
meu pai ia pro raçado
me chamava, eu não ia
dizia que tava consado
porque serviço pesado
parte de mim não fazia

Uma infância verdadeira
que nunca sai da lembrança
aprendendo com a natureza
indo aonde os pés alcança
era anjo e demônio
tudo parecia sonho
no meu tempo de criança

Meu curral era de talo
do milho que eu plantava
meu gado era de "buzo"
que no açude eu pegava
o carrinho era de lata
as rodas de alpercata
que eu mesmo fabricava

As vezes eu trabalhava
e achava divertimento
botava um pá de ancoreta
no espinhaço do jumento
trazia água pra beber
depois lenha pra fazer
o nosso rico alimento

Era uma vida tranquila
que hoje sinto saudade
era muito diferente
dessa vida da cidade
hoje tem tudo na mão
tem torneira, tem fogão
e luz de eletricidade











Paraíba pequenina

vou falar da Paraíba
das coisa que tem aqui
do sertão ao litoral
do brejo ao cariri
terra de fertilidade
fico doido de saudades
quando ouço falar em ti


Coremas tem muita água
terra que me viu nascer
Campina grande é grande
nunca para de crescer
onde muitos sertanejos
realizaram os desejos
de estudar para vencer


Terra de bonita praias
onde o sol nasce primeiro
o ponto mais oriental
no nordeste brasileiro
onde as praias são mais belas
enfeitadas pelas velas
do nosso herói jangadeiro


O sisal e o abacaxi
de lá se faz exportação
o ouro branco floresce
no capucho do algodão
tem açúcar em quantidade
pra atender mais da metade
do consumo da nação


No sertão tem vaqueijada
que é a festa do vaqueiro
em Campina todo ano
é ponto de forrozeiro
pra fazer animação
e dançar o maior são João
do nordeste brasileiro


Quem visita a Paraíba
juro que não esquece mais
tem a capital mais verde
entre todas capitais
seu passado conservado
seu presente adiantado
nos termos nacionais


A cultura está presente
do sertão ao litoral
poetas e violeiros
que não baixa a sua moral
cantores e compositores
artesões e escritores
completam o quadro geral


Escolas e faculdades
as melhores do nordeste
oferecendo os cursos
formando os cabras da peste
pra trabalhar pelo mundo
sem esquecer um segundo
o lugar de onde vieste


Não sei porque vim embora
será obra do destino
será que não cabe mais um
lá não é tão pequenino
mais mesmo vivendo ausente
carrego sempre na mente
orgulho de ser nordestino
                        

Vou envelhecer fazendo o que fiz na mocidade


Hidroelétrica de Balbina. Manaus-Am 1986.

Me lembro do dia a dia
quando morei no sertão
tomar banho de cacimbão
toda manhã eu fazia
tudo era alegria
não pensava na idade
hoje só resta a saudade
e o tempo tá correndo
vou envelhecer fazendo
o que fiz na mocidade

Do meu tempo de rapaz
não é muito diferente
estou muito consciente
do que fiz  há tempo atraz
o que faço ninguém faz
pois não sinto essa idade
não invejo a mocidade
que do pesado está correndo
vou envelhecer fazendo
o que fiz na mocidade

Acordo de manhã cedo
vou direto pro roçado
pois no cabo do arado
corto terra sem ter medo
todo dia o mesmo enredo
pra mim é felicidade
não reclamo da idade
de noite não gemendo
vou envelhecer fazendo
o que fiz na mocidade

Galope a beira do fim

Eu queria viver a alegria
desses tempos que passam num segundo
velejar sobre o mares desse mundo
sem passar pelas ilhas da agonia
sassiar os desejos de Maria
purificar toda água desse mar
deixar uma semente em meu lugar
pra progredir e fazer um novo tempo
sem rascunho e sem cópias dos invento
que os homens da terra querem usar

Quem me dera se eu fosse um soberano
Pra prender e castigar os maus feitores
que se passam nesta vida por doutores
e comete o mesmo erro a cada ano
no avanço da ciência um engano
onde o homem passa anos a pesquisar
a maneira mais fácil de acabar
com essa grande maravilha natureza
procurando sua morte ou sua defeza
nos princípios de uma guerra nuclear

Veja bem como e linda a natureza
mas o homem é seu maior inimigo
se alimenta, respira e faz abrigo
e desfruta de sua grande riqueza
em troca de sua maior beleza
lhe desmata, toca fogo e vai embora
destruindo aos pouquinho a fauna e a flora
como se fosse ele quem a criou
desafiando as leis do criador
e pensa que niguém o ignora

Qualquer dia me sinto satisfeito
quando o homem conseguir se acabar
sei que vamos todos juntos pelo ar
numa nuvem compacta sem defeito
transformados em partículas por efeito
de um débil mental sem conciência
em querer dominar toda ciência
existentes pela lei da natureza
sabendo que no meio dessa grandeza
somos todos iguais por procedência